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Produtividade tóxica: você está trabalhando demais na pandemia?

Hoje teremos uma conversa franca e necessária sobre saúde mental e trabalho, tema extremamente atual devido às mudanças que aconteceram nos últimos 2 anos no mercado de trabalho. Mudanças estas que ganharam velocidade com a pandemia da Covid-19.

Para começar, uma reflexão: você sente que está sempre ocupada(o) com trabalho, estudos, cursos, atividade física, rotina de skincare e outras atividades?

Se a sua resposta foi afirmativa, saiba que não está só. É possível que você tenha entrado em uma dinâmica de hiper produtividade ou produtividade tóxica, com um desejo exacerbado de produzir cada vez mais. Muitas pessoas durante a pandemia entraram em uma espiral de hiperprodução, auto cobrança por resultados e passaram a acumular tarefas mesmo quando já estão com a agenda cheia. 

Existem razões psicológicas para esse fenômeno, como a psicóloga Amparo Saúde bem pontuou no artigo “O que é produtividade tóxica? Entenda como trabalhar demais pode prejudicar a sua saúde mental” (caso você não tenha lido, clique aqui).

Porém, como Gerente de Pessoas e Cultura, gostaria de falar um pouco sobre esse fenômeno no contexto de uma empresa e as razões para ele estar acontecendo.

Com o trabalho remoto as pessoas ficaram, em teoria, com mais tempo disponível, pois não precisam mais gastar tempo se deslocando para o local de trabalho, se deslocando para restaurantes no horário de almoço, esperando o elevador, etc.

No começo da pandemia, isso gerou um sentimento geral de euforia, bem-estar e “super potência”. Afinal, podíamos finalmente nos dedicar àquelas atividades que sempre quisemos e hobbies, como plantar uma horta ou fazer algum esporte. Lembra quando tínhamos praticamente um cronograma de lives? Live de exercícios, live de meditação, live do cantor preferido, dentre tantas outras?

Entretanto, não foi isso que aconteceu. Era impossível ignorar o que estava ocorrendo à nossa volta. No fim das contas, estávamos em casa por conta de uma pandemia que estava gerando mortes, desemprego e demissões. Por isso, com medo de perdermos o emprego, quisemos nos mostrar imprescindíveis no nosso trabalho e passamos a trabalhar cada vez mais.

O resultado? Trabalho, trabalho e mais trabalho, reuniões em horários cada vez mais inoportunos e o sentimento constante de “preciso fazer mais”. As próprias empresas, muitas vezes, por conta de reduções nos quadros de funcionários, incentivaram esse fenômeno ou não se deram conta dele a tempo, no meio do turbilhão de problemas que estavam acontecendo.

Como Gerente de Pessoas e Cultura, eu sei que, com o tempo, essa produtividade que parece positiva para olhos desatentos, causa mais prejuízos do que benefícios, pois colaboradores infelizes e doentes não produzem, não têm ideias, não colaboraram e, em último instância, não ajudam um negócio a prosperar. Nunca nos esqueçamos que empresas são feitas por pessoas! De nada adiantam colaboradores infelizes!

Aproveito para lembrar também que, caso você sinta que o seu trabalho esteja te causando prejuízos na sua saúde física e mental, procure um profissional de saúde e fale com alguém de confiança da sua empresa. Não tenha vergonha. Quebre esse tabu! 

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Agora que entendemos as razões para a produtividade tóxica e as suas consequências, trago boas notícias. Existem ações que podem ser feitas pelos gestores e Áreas de Pessoas para amenizar ou até mesmo eliminar esse problema. Vamos a elas.

Em primeiro lugar preciso falar com você, Gestor. Estabeleça corretamente quais são as prioridades da sua equipe e empresa para que os seus colaboradores não fiquem sobrecarregados. É sua responsabilidade analisar as demandas para priorizá-las e atribuí-las às pessoas adequadas. Além disso, não incentive essa atmosfera de hiperprodução enviando e-mails em horários inadequados e marcando reuniões fora do horário de trabalho. Horários livres na agenda (realmente livres, ok?) são fundamentais para a saúde mental.

Outra dica é falar com os seus colaboradores abertamente. Seja transparente e faça feedbacks periódicos. Mostre para cada pessoa da sua equipe o quão importante ela é e deixe-a segura com a sua própria capacidade. Se o colaborador estiver inseguro com o próprio emprego, é provável que ele passe a trabalhar cada vez mais para demonstrar o seu valor. Como mostram alguns estudiosos, a motivação é individual e cabe a cada pessoa se motivar, porém, para que isso aconteça o ambiente também deve ser motivador.

Se você é colaborador, também tenho algumas dicas. Em primeiro lugar você deve analisar se a sua saúde está sendo prejudicada por conta do excesso de produtividade. Após isso, reflita sinceramente quais os reais motivos para sua hiperprodução: Você está se sentindo inseguro? Sua autoestima está saudável? Você se sente ameaçado? E a reflexão mais difícil de todas: Qual o espaço que o trabalho ocupa na sua vida? Caso ocupe muito espaço e seja a sua principal motivação na vida, talvez seja hora de repensar.

Como sei que todo mundo gosta de dicas práticas, vamos a algumas delas:

  • Não dispense feriados, folgas e finais de semana: esses momentos são importantes para você recarregar as baterias
  • Tenha horários rígidos para trabalhar e não responda e-mails ou mensagens fora desse horário. 
  • Aprenda a dizer ‘não’: eu sei que é difícil no começo mas depois é libertador.
  • Reorganize a sua agenda: pode ser que você esteja trabalhando demais porque seus horários estão mal organizados
  • Estabeleça as suas prioridades: será que essa tarefa é realmente tão importante e urgente assim? Você vai se surpreender como, muitas vezes, o que parece urgente não é.
  • Descubra o que te faz bem: tenha hobbies e prazeres fora do ambiente de trabalho. Autoconhecimento é fundamental para a nossa saúde mental, mas  muitas vezes, temos dificuldade em entender o que estamos sentindo.

    Um instrumento bastante útil para reconhecer as nossas emoções e praticar auto conhecimento é o Diário de Emoções. Com ele, você conseguirá analisar aquilo que te faz mal para ter mais qualidade de vida e saúde mental.
    Clique aqui para baixar gratuitamente o Diário de Emoções que preparamos para você.

Por fim, é importante que entendamos que, por mais que o trabalho seja prazeroso e a sensação de ser útil é muito benéfica até para a nossa autoestima, ele é apenas uma fração do que somos e não deve ocupar toda a nossa vida. 

Eu sei que o ambiente atual de pandemia, desemprego e perdas pode gerar sentimentos que nos levem à produtividade tóxica. Por isso, é fundamental, do ponto de vista do colaborador, o autoconhecimento e a autopercepção para entender quando o trabalho está nos fazendo mal. Do ponto de vista das empresas e gestores, é importantíssimo cuidar da saúde física e mental dos colaboradores, fazendo com que o ambiente de trabalho seja saudável e propício para o desenvolvimento de todos.

Cuidar da saúde mental para ter uma sociedade e empresas mais felizes é possível e necessário.

Espero ter ajudado.

Se interessou pelo tema? Como complemento para esse artigo recomendo o livro “Sociedade do Cansaço” do filósofo coreano Byung-Chul Han. Vale muito a pena.